Boletim dos 25.
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Extrações, grupos e cultura popular

Edição nº 075Extrações · Grupos · Sonhos

A história do jogo do bicho começa no Rio de Janeiro de 1892, ligada ao Jardim Zoológico de Vila Isabel e ao barão João Batista Viana Drummond. O episódio pertence à cidade que atravessava os primeiros anos da República. Para compreender sua permanência no vocabulário brasileiro, é necessário acompanhar a passagem de uma atração localizada para um conjunto de práticas, impressos e referências que circulou além daquele jardim.

Um jardim em Vila Isabel

Uma descrição histórica preservada pela Biblioteca Nacional registra a abertura do zoológico em 6 de janeiro de 1888. O documento apresenta um estabelecimento particular em Vila Isabel e descreve sua coleção de animais. Ao tratar do jogo do bicho, relaciona a iniciativa à intenção de ampliar os recursos do jardim. A imagem de um animal era escondida em uma caixa, entre 25 figuras escolhidas para a atividade.

Esse testemunho é valioso por registrar a ligação entre o lugar e os animais. Também exige uma distinção: a data de abertura do zoológico não é a mesma da criação do jogo. As duas aparecem próximas em narrativas resumidas, mas correspondem a acontecimentos diferentes. Separá-las evita transportar a origem de 1892 para um momento anterior.

A mudança de escala

A síntese da Fundação Joaquim Nabuco situa a criação no final do século XIX e identifica Drummond como seu responsável. Registra também a atenção recebida em jornais cariocas, entre eles Jornal do Brasil, Jornal do Commercio e Gazeta de Notícias. A circulação pela imprensa oferece uma pista concreta para acompanhar como um acontecimento do jardim passou a ser conhecido em outros espaços da cidade.

A mesma referência informa que, em 1895, o prefeito Werneck de Almeida publicou o Decreto 133, proibindo a atividade nas dependências do zoológico. A informação demonstra que os conflitos com o poder público integraram essa história desde seus primeiros anos. Não se trata, portanto, de uma trajetória linear, restrita à conservação de uma curiosidade local.

Uma história urbana

A historiadora Amy Chazkel examina a origem do jogo do bicho na sociedade urbana da Primeira República. Seu estudo relaciona a difusão da prática a disputas sobre usos da rua, circulação comercial e controle público. O resumo da pesquisa destaca a popularização no Rio de Janeiro e a expansão posterior pelo Brasil. A perspectiva desloca a atenção de um único fundador para o ambiente social em que a prática se desenvolveu.

Essa abordagem permite formular perguntas mais precisas. Quem divulgava os registros? Em quais lugares os nomes dos animais eram reconhecidos? Como autoridades, jornais e habitantes descreviam os mesmos acontecimentos? Cada documento responde apenas a uma parte dessas questões. Um anúncio, uma notícia policial e uma crônica podem mencionar o mesmo tema e, ainda assim, oferecer pontos de vista distintos.

Animais, palavra e representação

A presença do tema não se limitou à notícia. Silvia Cristina Martins de Souza estudou poesias de monólogos apresentados e publicados no Rio entre 1892 e 1894. Sua pesquisa investiga como essas obras participaram dos debates sobre a modernização da cidade. O trabalho mostra que o jogo do bicho já podia funcionar como assunto de cena e de comentário do cotidiano nos anos próximos à sua origem.

A leitura cultural precisa conservar esse contexto. Reconhecer um animal em uma frase ou em um impresso não prova que todas as pessoas lhe atribuíssem o mesmo sentido. A relação numérica pode ser estável, enquanto as narrativas variam por autor, época e lugar. Essa diferença orienta o Boletim ao separar a tabela de referência dos textos sobre imagens e tradições.

O que as fontes permitem afirmar

O núcleo verificável reúne um lugar, um período e registros de circulação: Vila Isabel, o ano de 1892 e a presença crescente do tema na cidade e na imprensa. A partir daí, cada detalhe exige sua própria evidência. Relatos transmitidos mais tarde podem esclarecer formas de memória, mas não substituem automaticamente documentos contemporâneos ao acontecimento.

O arquivo do Boletim organiza resultados recentes; esta matéria trata de outra escala de tempo. Uma tabela diária documenta uma divulgação específica. Uma pesquisa histórica confronta testemunhos produzidos em circunstâncias diferentes. Manter essas funções identificadas permite consultar os números e conhecer sua história sem confundir informação presente, documento antigo e interpretação editorial.

Referências de contexto

  • Jardim Zoologico — descrição histórica do estabelecimento, acervo iconográfico da Biblioteca Nacional
  • Jogo do Bicho — Pesquisa Escolar, Fundação Joaquim Nabuco
  • Amy Chazkel. Beyond Law and Order: The Origins of the Jogo do Bicho in Republican Rio de Janeiro — Journal of Latin American Studies, v. 39, n. 3. 2007
  • Silvia Cristina Martins de Souza. Uma crônica sobre os fatos do momento: o jogo do bicho nas poesias de monólogos interpretados e publicados no Rio de Janeiro entre 1892 e 1894 — Estudos Ibero-Americanos, v. 44, n. 1. 2018